2008-03-05
PAGAR PARA APRESENTAR RESULTADOS DE INVESTIGAÇÃO
No próximo mês de Junho, dias 23, 24 e 25 de Junho, Portugal receberá em Lisboa um grande evento na área da gestão empresarial: A Décima Quarta Conferência ICE. (para mais informações consultar http://www.ice-conference.org/)
Dizem os organizadores e patrocionadores que a conferência ICE é o primeiro fórum que permite aos investigadores, aos não académicos e aos fornecedores, apresentar, partilhar e demonstrar os resultados do seu trabalho no âmbito da área de especialidade.
Qualquer jovem investigador fica entusiasmado com a possibilidade de apresentar alguns dos resultados da sua investigação neste tipo de conferências, mas logo perderá o entusiasmo, ao perceber que além do artigo científico que terá de escrever e submeter a aprovação do júri, terá igualmente de pagar a módica quantia de 650 euros pela presença na conferência em que deveria discutir o artigo eventualmente aprovado para publicação.
Caso para dizer... São as Leis do Mercado. Investigador pobre, provavelmente bolseiro, a receber uma bolsa de investigação na ordem dos 980 euros mensais, não pode dar-se a semelhantes luxos!
Ora o que mais me indigna, não são os 650 euros. É a ausência de oportunidade para o pobre bolseiro e a falta de sensibilidade dos organizadores.
Os preços de participação neste tipo de eventos são verdadeiras barreiras à entrada para a grande maioria dos investigadores, nomeadamente para os investigadores portugueses.
2008-03-04
Surto de diarreia mentalóide ataca alguns Dirigentes da Administração Pública na área da Saúde
A propósito dos disparates de certas Administrações Hospitalares em relação ao fornecimento gratuito de medicamentos aos doentes da Artrite Reumatóide. Assunto que já cansa e irrita, sem que o Governo tome mão no assunto. Eis os contornos da doença DIARREIA MENTALÓIDE:
A DIARREIA MENTALÓIDE é a principal doença mental sistémica, devido à sua prevalência e aos problemas que suscita entre Dirigentes da Administração Pública.
O que é a diarreia mentalóide?
É uma doença mental de burrocracia crónica de etiologia desconhecida.
Ocorre em todas as antiguidades na Administração Pública e apresenta, como manifestação predominante, o envolvimento repetido e habitualmente crónico das estruturas mentais burocráticas e das partes neurológicas responsáveis pelo comum bom senso. Pode, contudo, afectar o tecido conjuntivo em qualquer parte do organismo e originar as mais variadas manifestações sistémicas, como é o caso da miopia nas decisões que afectam os administrados (vulgo, o povo utente dos Serviços Públicos e principal razão da sua existência).
Quando não tratada precoce e correctamente, a diarreia mentalóide acarreta, em geral, graves consequências para os utentes dos serviços públicos, traduzidas em incapacidade funcional das Unidades Orgânicas dos ditos Serviços Públicos e para o trabalho dos desgraçados dos funcionários que têm de aturar a diarreia mentalóide do seu superior hierarquico.
Tem elevada comorbilidade (palavra cujo significado não sabemos e que não surge no dicionário online da Priberam http://www.priberam.pt/dlpo/definir_resultados.aspx, mas lá que dá um ar muito douto e intelectual a quem a pronuncia ou escreve, dá!) e mortalidade cerebral acrescida em relação à população em geral.
Quais são os factores de risco?
Género - os dirigentes homens são frequentemente mais afectados (quatro homens para uma mulher);
Antiguidade - é, sobretudo, uma doença dos funcionários com muita experiência profissional (leia-se antiguidade nas funções, provavelmente repetindo os mesmos erros que lhe foram ensinados pela respectiva chefia) e um mínimo de 4 ou 6 anos de antiguidade para poder candidatar-se a um cargo de Chefe de Divisão ou de Director de Departamento. Todavia, é essencialmente doença particularmente referenciada entre Dirigentes de Topo e Gestores Públicos que foram nomeados de acordo com o famoso Princípio de Peter;
Historial de doença e vacinação - esporadicamente, surgem casos de diarreia mentalóide depois de infecções por parvovírus e vírus da rubéola (o vírus do rubor, altamente contagioso e que ataca os que ainda têm algum pingo de vergonha perante as reclamações dos utentes dos serviços públicos) ou vacinações contra o tétano nos serviços públicos (de notar que em grego, tetanós significa rigidez, e a vacina tem sido ministrada com o intuito de flexibilizar e agilizar a Administração Pública, mas oferece grandes transtornos colaterais como é visível no dia-a-dia) e a influenza dos conhecimentos e amigos nas nomeações para cargos públicos.
Quais são as formas de prevenção?
Entre os factores de protecção sugeridos destacam-se a gravidez (terapia muito adequada para demostrar que há vida para além dos castelos burocráticos), o uso de contraceptivos orais e/ou de viagra (altamente preventivo, já que enquanto fornicam o parceiro ou a parceira, não fornicam o desgraçado do utente contribuinte) e a ingestão moderada de álcool (seria mais aconselhável o formol para conservar a burrocracia em estado latente controlado, mas OMS adverte para consequências ainda não totalmente conhecidas e devidamente estudadas).
O diagnóstico precoce é fundamental, uma vez que esta doença, diagnosticada nos primeiros três a seis meses do seu curso clínico e tratada correctamente, tem grandes probabilidades de não evoluir para a incapacidade funcional para o trabalho, diminuir a comorbilidade e não reduzir a esperança de qualidade de vida do utente que necessita dos serviços públicos geridos pelo paciente afectado pela Diarreia Mentalóide.
Não podemos evitar o surgimento da doença, ainda que José Sócrates e outros doutos o tenham tentado por modernas técnicas cirurgicas com a Lei, o Decreto-Lei, o Decreto-Regulamentar ou a simples Portaria. A prevenção destina-se, fundamentalmente, a diminuir a gravidade da doença, de forma a reduzir a incapacidade funcional do Serviço Público e a melhorar a qualidade de vida do cidadão utente desses serviços.
Como se diagnostica?
O diagnóstico precoce é feito com base na verificação de:
Tumefacção de três ou mais neurónios perante a tentativa de interpretação de um simples despacho ministerial;
Frases mal articuladas e nada convincentes perante os Jornalistas da Comunicação Social, tentando explicar e justificar decisões inexplicáveis e injustificáveis;
Rigidez matinal superior a trinta minutos que impede atender o telefone até ao quinto toque da campainha e a compreensão do teor de uma petição enviada pelo utente ao abrigo da Lei de Direito de Petição, bem como escrever a respectiva resposta sem invocar um conjunto de legalismos desfazados e defensivos do status quo;
Simetria do envolvimento articular do pensamento, que aponta para medidas de tendência central e rejeita as medidas de dispersão. Alta aversão a contestar factos com base na mediana, moda, variância, desvio padrão;
Não basta fazer exames laboratoriais e radiografias para estabelecer o diagnóstico. É necessário realizar outros exames, como a intelectografia, a ultraraciocíniografia e a ressonância mental nuclear, pois são estes que revelam burocraciativite (inflamação da região neurológica cerebral que controla as tendencias desviantes para a burocracia) ao termo de apenas algumas semanas.
Como se trata?
Nos últimos 15 anos, o tratamento da diarreia mentalóide evoluiu significativamente, em consequência da avaliação da actividade inflamatória, do conhecimento dos factores de pior prognóstico, do uso precoce de fármacos anti-burocráticos de acção lenta, do aparecimento de terapêutica combinada e, mais recentemente, da terapêutica legislativa.
Os dirigentes dos serviços públicos com diarreia mentalóide devem ser acompanhados por um Ministro ou Secretário de Estado com carácter de urgência e logo que sejam detectados os primeiros sintomas.
Para saber mais sobre as consequências da diarreia mentalóide consulte e fale, por exemplo, com os associados da Associação Nacional de Doentes com Artrite Reumatóide, umas das últimas vítimas de recente surto de diarreia mentalóide em alguns Hospitais Públicos.
2008-03-03
Um Governo e uma Assembleia da República assessorada por pigmeus
Há uma única máquina gigante manobrada por pigmeus: a burocracia.
Honoré De Balzac
Creio que Balzac não sentiria grandes diferenças caso tivesse a oportunidade de ressuscitar e viver, por uns dias, a realidade portuguesa deste primeiro decénio do Séc. XXI. Na verdade, passe a perplexidade face ao avanço tecnológico, pouca diferença sentiria em relação à actual realidade da nossa Administração Pública.
Estamos imensamente "inovadores" e até temos medidas como o SIMPLEX e a EMPRESA NA HORA, mas em quase tudo o resto comportamo-nos como naquele conto de fadas da minha infância, sem que ninguém ouse afirmar - O Rei vai nú!
Basta a leitura de meia dúzia de diplomas (Leis, Decretos-Lei, Decretos-Regulamentares e Portarias) para perceber que são mais as operações de cosmética do que as verdadeiras mudanças em relação a um status quo que se esconde por detrás dos cosméticos que adornam os ditos diplomas. Uma das últimas evidências surge na leitura da Lei n.º 12-A/2008 de 27 de Fevereiro. Seriam de esperar mudanças substanciais quer na caracterização das carreiras (Art.º 49) quer no recrutamento, muito em particular nos métodos de seleção (Art.º 53), mas este diploma legal traz mais do mesmo.
Com base numa primeira leitura sumária desta Lei, a qual merece leitura atenta e cuidada, identificam-se a olho nu três grandes oportunidades perdidas:
Uniformização das carreiras e categorias segundo o sistema utilizado para os Funcionários dos organismos e organizações da União Europeia;- Introdução da remuneração mista (remuneração base + remuneração variável + prémios);
Novos métodos de selecção, orientados ao futuro, ao potencial dos candidatos, em lugar das habituais provas de conhecimentos memorísticos e seus sucedâneos.A primeira oportunidade perdida, implica que todos são iguais independentemente das habilitações académicas e percurso profissional, criando gritantes injustiças a coberto do legalismo do processo. A segunda oportunidade perdida implica que os postos de trabalho continuarão sem serem devidamente caracterizados em dimensões importantes como o grau de responsabilidade e de exigência da actividade exercida, a qual deve ser remunerada de forma variável e de acordo com o próprio posto de trabalho (por exemplo, ser o gestor de rede responsável por garantir o bom funcionamento da rede informática da Câmara Municipal de Lisboa é coisa bem distinta de ser o gestor de rede responsável por garantir o funcionamento da rede informática da Câmara Municipal de Arganil). Em Espanha existe algo idêntico, o complemento de destino, o qual funciona como um autêntico motivo à mobilidade e bom desempenho.
Por último, a terceira oportunidade perdida significa que os velhos métodos continuarão em vigor, não se destruindo as barreiras à entrada que pululam nas nossas arcaicas instituições. Em casos extremos, mas não impossíveis de ocorrer - muito mais agora nesta sociedade em que o emprego para toda a vida acabou - um licenciado com 4 ou 5 anos de carreira continuará a poder exercer a função de júri e de avalidador de um especialista doutorado que se sujeita a concurso. Não acredita? Já ocorre na avaliação de desempenho dos docentes do Ensino Básico e Secundário. O grande busílis da questão não está apenas no facto de um Licenciado avaliar um Mestre ou um Doutor, está no facto de um qualquer incompetente ou ressabiado licenciado não preterir o candidato com mais habilitações e curriculum profissional melhor que o seu, por simples medo da concorrência.
Quem pense que isto não ocorre a diário na nossa Administração Pública, é porque vive no País nominal criado nos Gabintes das nossas Secretarias de Estado. Certamente, após leitura de alguns dos nossos diplomas legislativos, Honoré De Balzac não deixaria de escrever algo como:
Há duas únicas máquinas gigantes manobradas por pigmeus: a burocracia e o Governo Português.
2008-03-01
As ruas do Barreiro estão mais tristes
Há pessoas que nos marcam sem sabermos. Michael Plowden, o Mike, foi uma dessas pessoas. Hoje, dia do seu funeral sinto o quanto um sorriso franco e aberto pode marcar a diferença. Sinto a falta do sorriso do Mike, da sua bonomia e as ruas do Barreiro estão agora mais tristes.
Mike foi um cidadão do Mundo, um cidadão do Barreiro. Merecia Bandeira a Meia Haste nos Paços do Concelho. Pela sua cidadania barreirense e dedicação aos jovens do Barreiro esperava este gesto da nossa Autarquia, mas provavelmente há um protocolo que o não permite.